Fim de capítulo

Depois de um longo hiato resolvi voltar ao blog para escrever sobre um tema que deixa muita gente sem dormir: a perda de um emprego.

Estranhamente, eu que fora tão ansioso anteriormente, lamentei mais perder o contato diário com tantas pessoas amigas, interagir sobre temas do cotidiano e por vezes conversar com aquela pessoa mais chegada sobre as angústias e reviravoltas que a vida nos dá.

Dito isso, tenho de reconhecer que durante quase 19 anos de trabalho, aprendi e realizei muitas coisas que jamais pensei fazer e conhecer. Sou muito grato à Bireme por tantas oportunidades de programação, análise de sistemas, análise de problemas, treinamentos, capacitação, tradução técnica, viagens que me proporcionaram conhecer pessoas e lugares incríveis, mas acima de tudo por me dar a oportunidade de manter as amizades que lá fiz apesar do tempo e da distância.

Ao longo desse período, vi partirem amigos queridos, alguns que jamais revi, mas que estão presentes no facebook, no twitter, no e-mail, no whatsapp. Revejo mentalmente as despedidas, os marcos de reencontro, os aniversários, as celebrações de fim de ano, as festas institucionais e lembro de uma época que me senti abraçado, como um filho em uma família.

Mas chega o dia que o filho cresce e precisa tomar seu caminho, descobrir-se, desafiar-se. É como me sinto hoje, um dia após a despedida, um ser em processo de mutação, um redescobrir, um reinventar. E apesar de parecer intimidador ver o mundo todo à frente é, ao mesmo tempo, inspirador por não haver limites impostos, por estar na base da montanha e poder escolher por onde quero escalá-la.

Aos amigos que fiz nesta instituição agradeço de coração por compartilhar seus momentos, suas palavras, seu pensar comigo. Foi e continuará sendo muito enriquecedor sempre.

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Ontem, 20 de julho, se foi mais um filhote. Embora com idade de 17 anos creio que se não ficasse doente aguentaria mais uns 10.

O Soneca sempre foi muito ativo, interessado, brincalhão, comilão, comunicativo, inteligente e curioso. Era o relações públicas da casa sempre que chegava alguma visita. Quando gostava de alguém permitia até que lhe agradasse.

Há cerca de seis meses parou de brincar, repentinamente, mas ainda pedia carne e ainda circulava bem pela casa. Há um mês parece que a idade finalmente lhe abateu nos ossos e lhe tirou a vontade de andar e até de pedir comida. Ficava entristecido deitado ou no sofá ou na nossa cama. Ao lado dele, como querendo mimá-lo, além de minha esposa, uma meia irmã (Dominique) que faz parte da primeira geração, aconchegava-se sempre com ele. Às vezes, miava como se dissesse que algo estava errado. Mais de uma vez surpeendi outra irmã bem mais nova lhe fazendo o toilette no rosto e me comovi… principalmente porque ele permitia sem reclamar.

Apesar do vazio e da dor deixados por sua falta, me sinto feliz por poder abreviar seu sofrimento. Há pouco dias tivemos o terrível diagnóstico de PIF – peritonite infecciosa felina, uma doença cruel que faz o gato definhar com fome, sede e dor.

Sinto um misto de raiva e inconformismo, tristeza e pesar, mas ainda sim sou grato a Deus por tê-lo me emprestado para cuidar e amar. O que resta agora, além da lembrança e do amor que senti e ainda sinto por ele, é ver nas fotos que minha esposa tirou, a essência de quem era o Soneca: sua doçura, seu jeito tranquilo, um trinado inesquecível e muita vontade de viver.

Vai em paz filhinho. Um dia, se Deus quiser nos vemos novamente.

As fotos a seguir foram capturadas por Denise Fernandes a quem não tenho palavras para agradecer por manter este registro maravilhoso de nosso filho. Vendo estas fotos constato também que a fotografia somente evolui e encanta quando é feita com amor, dedicação e persistência.

Clique na foto para ampliá-la.

Ontem perdi mais um pedaço do meu coração. Minha princesinha de apenas dois anos e meio perdeu a batalha para uma doença horrível e cruel. A PIF, abreviação de peritonite infecciosa felina, é uma doença causada pela mutação de um coronavirus felino e é fatal. Acomete gatos de 6 meses a 3 anos de idade e pode aparecer também na velhice.

Nunca pensamos que pudessemos passar por isso. É um sofrimento muito grande, psicológico e físico. Preciso colocar minha raiva e inconformismo em palavras porque estou quase explodindo. Não consigo dormir, nem relaxar e não paro de sentir lágrimas brotando a todo minuto. Me pergunto porque? Não encontro resposta nem alento e, de repente, assisto um filme de suspense na TV paga para me distrair e que me passa uma mensagem inesperada e maravilhosa de esperança.

Algumas pessoas diriam que vemos o que queremos. Pode ser, mas havia pedido a Deus para colocar algo no vazio do peito. Algo que acalmasse minha dor e meu desespero. Algo que me fizesse pensar em voltar a viver, voltar a olhar para mundo como se algo inda valesse a pena. Para mim, é uma mensagem Dele, uma resposta, uma esperança. Daí, eu olho pra foto dessa linda menina que Ele me deu pra cuidar e vejo o quanto eu fui feliz de poder agradá-la, cuidá-la e amá-la. Obrigado filhinha. Fica em paz, sem dor, sem doença. Um dia, se Deus quiser, te vejo de novo. Teu papai que muito te ama.

Aquela música

Domingo frio e chuvoso. Um dia para se ficar em casa, mas como ficar se há um show de Jane Duboc no Teatro Décio de Almeida Prado. Um pequeno, mas bem aparelhado e limpo teatro de escola. Ainda bem que ainda existe cultura sendo preservada e mantida.

Mas voltemos ao assunto. Assistir Jane Duboc ao vivo é lembrar de cada fase da minha vida, recordar os amigos que se foram tão cedo, reviver viagens, sonhos, anseios… a certeza de uma vida plenamente vivida. E um show dela jamais decepciona. Ao contrário, ela nos encanta com seu sorriso, sua voz e sua simplicidade.

Jane Duboc Jane Duboc Jefferson Lescovich

Conheci o trabalho da Jane em 1980 durante o Festival MPB Shell com a música Saudade. Depois, vieram muitas outras canções inesquecíveis, marcantes e fortes, porém delicadas como pétalas de flor: Manoel, o audaz; Languidez; Menino; Eu no sol; Mansidão, As criaturas da noite;  Canção da espera, Auto-retrato… só para citar algumas. Ouvir aquela voz aquece a alma. E naquela noite fria foi o que aconteceu, todos fomos aquecidos por uma voz companheira, meiga, suave, serena…

Para os que não conhecem seu trabalho deixo abaixo o link para um pout-pourri onde selecionei alguns trechos das músicas que ela apresentou ao lado do contrabaixista Jefferson Lescovich.

Mais uma vez essa paraense mostra toda a beleza da nossa música, nossa verdadeira música popular: com letra, melodia e ritmo; e acima de tudo com muita paixão pela canção.

Saudade

Hoje minha vida completou um mês sem o Félix. A dor inda não passou mas acalmou um pouco. Foi parcialmente aplacada pela doce lembrança dos momentos que vivi com ele e compartilhamos olhares, carinhos, cuidados… Afinal, 17 anos não são 17 meses.

Penso que o pior inda está por vir, pois o Natal era especialmente importante por seu significado intrínseco e também por ser o mês de seu nascimento. Não consigo imaginar como será este ano sem ele. Não vejo porque fazer uma árvore de Natal se era para ele que fazíamos. E aqui vale uma explicação: observá-lo nos primeiros dias após a montagem da árvore era como olhar para uma criança que tem em seu olhar toda a esperança do mundo.

Repentinamente, a agonia e a dor voltam enquanto escrevo estas palavras, mas se não as escrevesse estaria sendo consumido por elas na mente, porque a memória ainda se lembra dos momentos antes do fim. Lembro do Soneto do gato morto de Vinícius de Moraes, cujas palavras marcam cada perda, cada ausência:

“Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
as selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda,
altas correntes de eletricidade
rompem do ar as lâminas em cinza
numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
um de nós, e ao morrer perde o veludo,
fica torpe, ao avesso, opaco, torto…

Acaba, é o antigato; porque nada,
nada parece mais com o fim de tudo
que um gato morto.”

Novamente, só o que resta é a saudade nas lembranças e nos sentimentos. E súbito percebo que estas marcas, de tão profundas, tornam-se o único laço indelével, indissoluto, inestimável e que nada nem ninguém me pode subtrair.

Poucas coisas doem mais que perder um filho. Na realidade só uma: vê-lo sofrer.

Nosso Félix, companheiro há 17 anos, se foi hoje depois de seis meses de batalha contra um linfoma. Além do prognóstico terrível desta doença, sofreu também com artrose e toda a degeneração que um gato doméstico pode ter aos 17 anos e alguns meses.

Ainda não consegui aceitar que tanto tempo se passou, porque parece que foi ontem que ele chegava para fazer companhia nas tardes solitárias logo após um período de desemprego em 1995.  Dormíamos juntos no sofá depois de brincar um pouco.

Reparo agora o quanto eu tive sorte de tê-lo conhecido e amado, ter aprendido tanta coisa com ele, mas lamento pelos momentos que me ausentei, seja por questões profissionais como viagens ou por motivos pessoais e mesquinhos como as saídas fotográficas que fiz nos últimos dois anos. Parece que o tempo nunca foi o suficiente quando perdemos a quem amamos.

Foi duro chegar em casa e encarar aquela caminha sem ele. Apesar dos seus irmãos virem me receber ao entrar, eu não os via, porque o coração também se esvaziara, se partira.  A casa parece estranha, fria e vazia.

Não é a primeira vez que sinto essa dor, já perdemos a Dília, a Bella, o Jimmy, o Moustache, a Diana, o Freddy, o Fígaro, o Billy… mas o Félix foi o primeiro,  e de certa forma nos confortava quando um ou outro se ia. Parece que nos consolava com seu olhar meigo e sincero. Me pergunto quem irá me consolar agora e quase imediatamente vem um deles se enroscar nas minhas pernas, pedir um carinho, me olhar com aquele mesmo olhar e já sinto que é Deus me mandando um sinal, uma mensagem de que tudo aqui é passageiro e que nada, nem ninguém é nosso.

Procuro pensar que na rua, onde o encontramos em março de 1994, ele não teria durado 5 anos. Penso em todas as vezes que lhe compramos um brinquedo, uma coberta, uma ração diferente, nos quilos de carne que pudemos lhe dar, no conforto, na segurança de um lar onde foi amado… inda sim, continuo angustiado,  sentindo como uma derrota inevitável e infalível do tempo.

Dizem que o tempo cura toda ferida, mas estas que a saudade abre e a dor dilacera, somente Deus pode fechar e lá deixar uma cicatriz, a prova irrefutável do quanto sou ínfimo, patético, mortal e, portanto, humano.

Não consigo dizer ‘adeus’ ao meu filho, somente um ‘até breve’, porque como diz um ditado russo antigo: coração não é de pedra!

Esquecimento

PartidaPrenúncioReminiscências
SolidãoMágoaLampejo

Esquecimento, um ensaio no Flickr.

Há momentos que precisamos nos sentir únicos, sozinhos, inteiros… sem que nada nem ninguém nos ofereça abrigo ou perigo, amor ou ingratidão, o riso ou a lágrima…

Há momentos que a alma se cansa, se perde entre luzes e sombras, se reencontra e sucumbe ao cansaço da vida. Uma miséria da alma, consumida pelos anos, esquecida pelas perdas…

Partir… retomar o caminho e seguir até que a última luz seja generosa e inunde com a verdade o vazio que se fez da morte.

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