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Há poucas horas assisti Star Trek: Sem Fronteiras e, invariavelmente, muita coisa passou pela minha cabeça, aliás minha vida quase inteira foi revisitada em paralelo ao filme. Espera, eu explico.

É que diferente da maioria do público, relativamente jovem e entusiasmado, que assiste à novíssima versão dessa franquia, eu tive o privilégio de viver nos anos 70 e curtir a série original desde seu início numa TV preto e branco de tubo. Depois, já na década de 80 vieram os filmes de cinema, e então a nova série para TV a cabo, as séries derivadas etc… Sentiu o peso?

Então, ver Jornada nas Estrelas hoje, qualquer que seja a versão, me remete a muitas lembranças. Algumas muito alegres como meu primeiro contato com a ficção científica, outras muito amargas como a perda de meus dois melhores amigos de infância aos 40 e poucos anos, amigos esses que compartilhavam do mesmo carinho e entusiasmo pela série e com os quais vi os primeiros filmes para cinema.

Impossível não lembrar dos sonhos de infância de querer ser astronauta ou cientista. Mais ainda não recordar cada conversa que tive com ambos amigos após cada filme, cada insight, cada opinião pessoal… Tenho saudade. Acho que era a única pessoa na sala de cinema chorando a cada precioso momento recordado.

Mas não é só a parte da ficção que impressiona e que atrai em Star Trek, é também a filosofia de vida que seu criador, Gene Roddenberry, instilou na série e que permanece até hoje: uma sociedade baseada na igualdade de direitos, que não visa acumulação de riqueza material mas benefício social, intelectual, psicológico, profissional e pessoal de cada indivíduo através de sua contribuição para esta mesma sociedade. Parece até propaganda comunista, mas é melhor, porque não fala de ‘capital’, nem de ‘dinheiro’, nem de ‘exploração’, nem de ’empresa’, nem de ‘revolução’, nem de ‘religião’… aqui todos são iguais, tudo é democrático e tudo é grátis.

E a diversidade que a série sempre mostrou? Afinal temos protagonistas de diversas raças, origens, culturas, crenças, sexualidades, enfim uma verdadeira harmonia interplanetária, ou melhor, intergalática. Enquanto isso, voltando à realidade, num pequeno planeta de um pequeno sistema solar de uma das milhões de galáxias que existem neste universo (obrigado, Cortella), as pessoas ainda são preconceituosas com praticamente tudo.

É muito triste ver que uma expressão artística propõe um mundo melhor enquanto que várias religiões que dizem basear-se em amor, fraternidade e solidariedade estão a entoar cânticos de ódio aos diferentes, aos excluídos, aos que são diversos ou simplesmente trans.

Isso é o que me deprime mais sempre. Ver que não mudamos. Dizemos que praticamos o bem baseado num princípio ou crença, mas se sairmos de casa atrasados ou após uma discussão com algum familiar, paramos para xingar o primeiro a cruzar nossa frente. Deixamos de dar bom dia por chegar atrasado ao emprego. Criamos caso no almoço por que o bife não estava ao ponto. Jogamos fora a comida só porque esfriou.

Esquecemos que o outro somos nós mesmos, em outro dia, quando somos xingados, ou quando não nos cumprimentam ao chegar. Esquecemos que para ter o bife, um animal foi abatido após uma vida de confinamento e tristeza, em favor de um negócio rentável. Esquecemos que em algum lugar do mundo alguém está morrendo de fome naquele exato momento. Esquecemos até que somos infelizes, e se olharmos bem o bastante para nós mesmos frente ao espelho, não nos reconhecemos mais, não nos importamos mais.

Eu mesmo me vejo como parte desse mundo doente e deprimente. Por vezes me comporto de forma errada, notando apenas depois que já fiz minha parte no grande erro da humanidade: a intolerância e o descaso. É doloroso perceber o que nos tornamos depois de repetidas experiências amargas, decepções, mágoas, medos, indiferença, esquecimento… O coração vai se endurecendo, contrariando um provérbio russo que diz que o coração não é de pedra.

Há horas que me pergunto por quanto tempo iremos continuar nesse pesadelo sem acordar. Quanto tempo ainda ficaremos sem enxergar no outro – sendo este humano ou animal – um igual, um ser vivente, e portanto com o mesmo direito de viver plenamente e ser feliz.

Silvana Duboc escreveu algo bem pertinente sobre a felicidade e sobre os aspectos do viver feliz.

“Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!”

Alguém há de me perguntar, mas e os animais? Como garantir que sejam felizes? Basta que os deixemos viver suas vidas naturalmente. Como disse James Oliver Curwood em seu livro The Grizzly King: “A maior emoção não é matar, mas deixar viver.

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