Archive for June, 2012

Saudade

Hoje minha vida completou um mês sem o Félix. A dor inda não passou mas acalmou um pouco. Foi parcialmente aplacada pela doce lembrança dos momentos que vivi com ele e compartilhamos olhares, carinhos, cuidados… Afinal, 17 anos não são 17 meses.

Penso que o pior inda está por vir, pois o Natal era especialmente importante por seu significado intrínseco e também por ser o mês de seu nascimento. Não consigo imaginar como será este ano sem ele. Não vejo porque fazer uma árvore de Natal se era para ele que fazíamos. E aqui vale uma explicação: observá-lo nos primeiros dias após a montagem da árvore era como olhar para uma criança que tem em seu olhar toda a esperança do mundo.

Repentinamente, a agonia e a dor voltam enquanto escrevo estas palavras, mas se não as escrevesse estaria sendo consumido por elas na mente, porque a memória ainda se lembra dos momentos antes do fim. Lembro do Soneto do gato morto de Vinícius de Moraes, cujas palavras marcam cada perda, cada ausência:

“Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
as selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda,
altas correntes de eletricidade
rompem do ar as lâminas em cinza
numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
um de nós, e ao morrer perde o veludo,
fica torpe, ao avesso, opaco, torto…

Acaba, é o antigato; porque nada,
nada parece mais com o fim de tudo
que um gato morto.”

Novamente, só o que resta é a saudade nas lembranças e nos sentimentos. E súbito percebo que estas marcas, de tão profundas, tornam-se o único laço indelével, indissoluto, inestimável e que nada nem ninguém me pode subtrair.

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